A startup fundada por Franco Rodríguez Viau combina inteligência artificial e dados de satélite para detectar incêndios antes que se agravem. Após fechar uma rodada milionária, projeta sua expansão no Uruguai e já oferece seu serviço na região.
Aos 22 anos, Franco Rodríguez Viau lidera uma das propostas mais singulares dentro do ecossistema de climate-tech da América Latina. Como CEO da Satellites on Fire, encabeça uma equipe que combina inteligência artificial, imagens de satélite e modelos preditivos para detectar incêndios florestais antes que se agravem. A empresa foi fundada em 2020 junto com seus sócios Joaquín Chamo y Ulises López Pacholczak, com quem começou a desenvolver a tecnologia durante seus anos de formação. O que começou como um projeto escolar evoluiu para uma solução aplicada hoje em múltiplas indústrias. Esse crescimento se consolidou com uma rodada seed de US$ 2,7 milhões, impulsionada por fundos internacionais como Dalus Capital, Draper Associates, VitaminC y Draper Cygnus, entre outros investidores focados em soluções tecnológicas para desafios ambientais. Para Diego Serebrisky, Managing Partner da Dalus Capital, o potencial é claro: “É um exemplo de como o talento latino-americano está criando soluções de inteligência artificial de classe mundial para enfrentar a mudança climática”. 
De uma experiência pessoal a uma solução global
A origem do projeto é atravessada por uma experiência direta. Durante a adolescência, Rodríguez Viau foi testemunha de incêndios que afetaram pessoas de seu círculo próximo na Argentina, um ponto de inflexão que orientou sua vocação tecnológica para o impacto ambiental.
“Ali entendi que a tecnologia podia ser usada para resolver problemas reais”, explica. “Começamos com uma ideia bastante básica, mas com o tempo aprendemos que o importante era escutar quem enfrenta o problema todos os dias”. Seu vínculo com a tecnologia começou na escola ORT de Buenos Aires, onde se especializou em TIC, participou de olimpíadas de informática e desenvolveu seus primeiros projetos com foco social.
Aprender com o erro: a virada que definiu o produto
O caminho inicial esteve longe de ser linear. Depois de desenvolver um primeiro protótipo baseado em imagens de satélite, a equipe o apresentou a brigadistas. A resposta foi contundente: não servia.
“Foi um golpe forte, mas também o aprendizado mais importante”, lembra. “Percebemos que, antes de construir soluções, era preciso entender profundamente o problema”. A partir daí, a equipe iniciou um processo de iteração constante, entrevistando usuários e redesenhando o produto até chegar a um sistema operacional em vários países.
Como funciona a plataforma
Satellites on Fire opera como um software que integra dados provenientes de múltiplas redes de satélites —incluindo fontes como a NASA, NOAA e a Agência Espacial Europeia— e os processa mediante modelos próprios de inteligência artificial. A plataforma combina informação de satélite atualizada a cada poucos minutos, câmeras em torres e modelos de simulação de propagação. O sistema detecta focos de calor e envia alertas em tempo real via WhatsApp, e-mail ou SMS, junto com visualizações do comportamento esperado do incêndio.
“Processamos informações de múltiplos satélites em questão de minutos”, explica Rodríguez Viau. “Isso nos permite alertar até antes de o incêndio ser visível para as pessoas no terreno”. Diferentemente de outros enfoques que exigem desenvolver infraestrutura própria, a empresa aposta em um modelo baseado em software que integra diferentes tecnologias. Isso lhe permite detectar incêndios, em média, até 35 minutos antes que sistemas tradicionais, melhorando a capacidade de resposta.
Capturas do app Satellites on Fire
Escala, dados e validação em campo
O crescimento da empresa foi progressivo. Suas primeiras receitas vieram de um cliente individual na Argentina; hoje, a plataforma conta com mais de 55.000 usuários sob um modelo freemium e presença em mais de 20 países. O desenvolvimento de seus algoritmos se apoia em mais de 20.000 validações em campo, o que lhe permitiu construir uma das bases de dados de relatórios terrestres mais relevantes da América Latina.
“Em 2025, nosso sistema ajudou na resposta a mais de 600 incêndios florestais”, afirma. “Nossa missão é proteger comunidades, biodiversidade e produção antes que seja tarde demais”. Entre seus clientes estão empresas florestais, organizações agrícolas, seguradoras e governos, setores em que a prevenção tem impacto direto nos custos e na sustentabilidade.
O Uruguai como próximo passo estratégico
A expansão regional é uma das prioridades atuais. A empresa, de origem argentina, já trabalha em pilotos com atores do setor florestal no Uruguai e avalia instalar operações locais.
“Estamos avançando com testes-piloto e explorando a abertura de uma sociedade no Uruguai”, afirma o CEO. “Também queremos nos vincular com órgãos públicos e com o ecossistema local”. Enquanto isso, o serviço já está disponível: proprietários de campos, empresas e organizações podem contratar a plataforma diretamente por meio de seu site ou aplicativo.
Tecnologia, escala e uma premissa clara
Com uma equipe em expansão e presença em quatro continentes, a Satellites on Fire busca se posicionar como referência em detecção precoce de incêndios na América Latina e avançar em mercados como os Estados Unidos. Mas, além da tecnologia, Rodríguez Viau insiste em uma ideia que atravessa toda a história da empresa:
“As melhores soluções nascem de entender problemas reais. Não é preciso ter medo de começar, mesmo sem ter tudo resolvido”. Em um contexto em que os incêndios florestais aumentam em frequência e intensidade em nível global, a proposta de se antecipar —em vez de reagir— começa a se consolidar como um novo padrão. –
Fotografias: Cortesia da Satellites on Fire.





